30 abril 2007
O LIVRO DOS BONS PRINCÍPIOS (L)
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Olga sorri para mim na fotografia que está sobre a secretária, junto ao computador, pisca-me o olho na sala de estar, no velho aparador que foi da sua avó, volta a sorrir-me dentro de uma moldura que ela própria fez e colocou em cima da minha mesa de cabeceira, no nosso quarto.
Olhar para ela faz-me sofrer, mas algo em mim me obriga a fazê-lo constantemente, não sei se algum dia ganharei coragem para afastar estas fotografias da minha vista, se elas alguma vez deixarão de me doer.
Recordo cada momento dos últimos dias - estávamos tão contentes, a alegria dela contagiava-me. Olga encontrara finalmente um produtor para o seu primeiro filme, a primeira longa-metragem a sério. Empenhara-se tanto! Vinha de uma reunião com a equipa de produção, estacionara o carro em frente à nossa casa, do lado oposto da rua. Ao atravessá-la foi colhida por um carro vermelho que vinha a grande velocidade. Olga foi projectada pelo ar, eu estava em casa e ouvi um grito, senti o ruído surdo da colisão. Espreitei pela janela e vi o corpo imóvel de Olga junto ao passeio. Corri como um louco em direcção a ela. O condutor não parou. Olga, a minha adorada Olga, não se mexia. Percebi logo que estava morta.
Olga olha para mim e sorri-me sobre a secretária, junto ao computador. O seu sorriso mata-me por dentro e eu choro com pena de mim, dos nossos sonhos desfeitos, dos filhos que planeávamos e que nunca teremos. Depois olho eu para ela e prometo-lhe, pela milésima vez, que não arrumarei as fotografias, ainda que o seu sorriso continue a matar-me por dentro, enquanto não encontrar o condutor do carro vermelho.
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continua a ser escrito aqui às segundas-feiras
e no Divas & Contrabaixos,
pela mão de Maria do Rosário Fardilha
24 abril 2007
Couple Coffee - Conversa de Botequim [ videoclip ]
Simplicidade, talento e bom-gosto. Até parece fácil...
23 abril 2007
O LIVRO DOS BONS PRINCÍPIOS (XLVIII)
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Envelhece-se, com alguma sorte, envelhece-se. José Nascimento resignava-se com a gota, com o reumatismo, com a falta de ar, com a dor pemanente no peito.
A velhice terá certamente algumas vantagens, mas Nascimento não se conseguia lembrar de nenhuma. Habituara-se a lidar com as coisas, aprendera técnicas para compensar o inexorável esvair da virilidade, conseguia, por vezes, aplacar o medo e o terror nocturno, ignorava certos sinais com que o corpo o desafiava.
O pior de tudo era a má-disposição. Dava por si sempre mal-disposto, rezingava, resmungava por tudo por nada, tornara-se, lentamente, de forma quase imperceptível, o oposto do homem alegre que recordava ter sido.
Houvera um momento da sua vida que matara a alegria, ou esta fora-se consumindo até não restar traço nem centelha, até sobrar apenas amargura e cepticismo? Merda, repetia para si próprio, merda, merda, merda.
...
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para ler no Dia Mundial do Livro
e para continuar amanhã no
20 abril 2007
"Retratos de Animais"
de Svjetlan Junakovic
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Estão em marcha as inscrições
para a ilustrarte 2007
Bienal Internacional de Ilustracão para a Infância.
Todas as informações neste lugar.
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18 abril 2007
O rato pariu uma montanha!
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Depois de assistir à conferência de imprensa promovida pela Universidade Independente cheguei a uma conclusão definitiva: demita-se o país!
Ou talvez não valha a pena, pois um país que tem instituições universitárias e professores do ensino superior deste calibre já se demitiu há muito de si próprio. Nesse caso, declare-se Reserva Integral do Planeta e interdite-se ao género humano.
Assim, sempre haveria alguma esperança...
17 abril 2007
Portugal, um retrato social
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Acabei de ver o quarto excelente retrato de Portugal por António Barreto. Faltam três. E, porque retrata um país composto por muitos países, vou continuar a ver, às terças-feiras, na RTP1.
Quem não viu os anteriores pode encontrá-los aqui.
Armas de fogo
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Um estudante entra numa universidade, mata trinta e dois alunos e fere outros vinte e um. A grandeza dos números deixa-me perplexo e não sei o que pensar sobre isto, não consigo perceber as motivações, nem a persistência, nem o desprezo por tantas vidas tão jovens. Sei que não podemos encarar estas coisas com naturalidade, como se de um fait-divers se tratasse.
Em Portugal, segundo dados divulgados a semana passada, a violência com recurso a armas de fogo tem aumentado.
Eu proponho um raciocínio simples (que, obviamente, não explica tudo): Uma simples pistola, tratada com cuidado relativo, mantém-se funcional durante décadas. Todos os dias a indústria mundial de armamento produz milhares de "simples pistolas" que duram, cada uma delas, décadas. O arsenal planetário de "simples pistolas" e etc. não cessa de aumentar. A continuar assim chegará o dia em teremos mais cidadãos armados do que cidadãos, por exemplo, bem nutridos. Acho que não podemos encarar estas coisas com naturalidade.
16 abril 2007
O LIVRO DOS BONS PRINCÍPIOS (XLVI)
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Para o Luigi
- Nome?
- Z., Joseph.
- Idade?
- Quarenta e seis.
- Ora, cá está. O senhor não sabia que todos os cidadãos são obrigados a apresentar-se perante esta comissão no ano em que completam quarenta e cinco de idade?
- Escapou-se-me... desculpe.
- Desculpo? Escapou-se-lhe? O senhor pensa que pode ignorar os fundamentos da nossa organização social apenas com um pedido de desculpas?
- Quer dizer, eu não pensei que fosse assim tão grave...
- Não pensou que fosse grave... O senhor não se apresentou perante a Comissão de Verificação de Idoneidade Existencial e acha que não é grave? Esse facto, para começar, não abona em favor da sua Idoneidade Existencial. O senhor sabe o que a nossa sociedade faz aos relapsos, aos indigentes, aos improdutivos, aos objectores de consciência, aos independentes?
- Afasta-os.
-Exactamente, afasta-os. E o senhor, na verificação anterior, quando completou vinte e cinco anos, passou com alguma benevolência por parte desta Comissão. Apesar disso não parece ter-se esforçado o suficiente para permanecer entre os cidadãos reconhecidos como tal.
- Mas eu...
- Não me interrompa. Tenho aqui o seu processo, está aqui tudo, a sua vida, digamos, minuto a minuto. Aviso-o desde já que o senhor está a um passo muito pequeno de passar a dispensável. A forma como decorrer este exame pode, ainda que eu duvide, fazer com que prossiga entre nós.
Vamos lá a ver... para começar a sua conta bancária é demasiado baixa e você consome muito pouco. Pode explicar as razões?
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Imagine o leitor-autor que pretende escrever um livro e não sabe por onde, nem como, começar. O LIVROS DOS BONS PRINCÍPIOS proporciona-lhe uma vasta gama de princípios para conto, novela ou romance que o leitor-autor poderá seleccionar livremente. Depois terá apenas que escrever o resto demorando o tempo que entender.
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continua amanhã no
13 abril 2007
12 abril 2007
11 abril 2007
Desconhecia a existência de uma Bienal de Pintura de Pequeno Formato em Portugal. Mas existe e vai já na terceira edição. É organizada pela Câmara Municipal da Moita e pela Junta de Freguesia de Alhos Vedros.
Cada autor pode concorrer com dois trabalhos, que não podem ultrapassar os 33 cm x 24 cm, e o prazo de candidatura termina já no dia 16 deste mês.Os interessados podem pedir informações para:
Prémio de Pintura de Pequeno Formato Joaquim Afonso Madeira
932214015
09 abril 2007
O LIVRO DOS BONS PRINCÍPOS (XLV)
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Havia, nesse tempo, um rio que atravessava a planície onde os meus bisavós construíram a sua casa. O rio ainda lá estava quando o meu avô nasceu, e ele passou a sua infância mergulhando nas suas águas, preparando armadilhas para peixes, caranguejos e camarões, inventando barcos e batalhas, sonhando com a descida dessa estrada de água que, algures, num lugar longínquo e desconhecido, ia desembocar no mar.
Na aldeia contava-se a história de dois jovens amantes, haver-se-iam passado duzentos anos, segundo alguns, trezentos, segundo outros, que se teriam amarrado um ao outro por grossas correntes e atirado juntos às águas, unindo-se para sempre através da morte. A lenda passara de boca em boca, de geração em geração, e fora sofrendo pequenas distorsões ao longo dos anos, gerando versões distintas, apesar de todas coincidirem no essencial: dois amantes muito jovens, ela muito bela e rica, ele muito feio e pobre, um amor sofrido e tormentoso e uma noite, uma única noite em que a sua paixão se consumara até que, ao romper da madrugada, nada mais lhes restava senão o rio. Depois disso, dizia-se, ouvia-se um canto triste e langoroso emergir das águas em noites de lua nova e havia ainda, passado tanto tempo, quem jurasse escutá-los e distinguir claramente a voz de cada um deles.
O meu avô teria perto de vinte anos quando o leito do rio foi desviado alguns quilómetros por causa de uns projectos de engenharia. No leito antigo sobraram alguns poços com água, pequenos lagos, zonas pantanosas e mal-cheirosas onde proliferavam os mosquitos. Foi num desses pântanos que se encontraram dois esqueletos abraçados, unidos por grossas correntes muito enferrujadas. Bernardo Soares, meu avô, passou o resto da sua vida a estudar esses ossos, a desvendar a sua história, a procurar localizar descentes dos seus familiares próximos, a consultar velhos papeis em arcas e cofres igualmente velhos, e escreveu um livro em que narra as suas conclusões. Infelizmente morreu antes de o dactilografar e publicar. É precisamente esse livro que eu, palavra por palavra, passo a transcrever:
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está hoje neste quiosque
e às terças
07 abril 2007
Kelvin Sholar Trio "The Firebird Suite"
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A organização anunciava "uma formação norte-americana que nos vem apresentar, em estreia mundial, o seu novo trabalho que acaba de ser gravado e que versa a sua intrepertação do Pássaro de Fogo de Stavinsky".
Kelvin Sholar confirmou-o e acrescentou que se tratava do seu arranjo jazz para a dita composição clássica. Muito bem acompanhado por John Arnold (bateria) e Jonathan Robinson (contrabaixo), Kelvin Sholar revelou-se um enormíssimo pianista. Com o público na mão o trio fez o que melhor sabe fazer: Jazz.
A máquina fotográfica ficou em casa mas os músicos pareceram não ter dado por isso.
O Lagos Jazz 2007 encerra hoje com o Lagos Jazz Summit, que reúne os sete professores dos workshops do festival, entre os quais os três acima mencionados.
Sinos afinados em Lagos.
03 abril 2007
02 abril 2007
O LIVRO DOS BONS PRINCÍPIOS (XLIII)
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- Feromonas - disse o sr. Macjeito.
- Feromonas - disse o sr. Macjeito.
- Perdão? - perguntou o outro, que era fininho, corcovado e tinha cara de peixe.
- Feromonas, atracção animal, rebarba, cio - o sr. Macjeito agarrou o braço direito com a mão esquerda e rematou - tesão.
- E acha que isso explica tudo?
"Há tantas espécies de peixe", pensou o sr. Macjeito, "carapau, sardinha, tamboril" e declarou em voz alta - Você não imagina o que as feromonas têm feito pela história da humanidade.
- Mas o gajo era um bronco! Ela, vá lá, pode até dizer-se que é uma senhora, parece inteligente, cheira-me a que seja culta.
- Uma coisa sabemos: a tipa tinha dinheiro, podia pagar.
- Está a dizer que, para eles, era tudo uma questão de truca-truca?
- Agradeço que não ponha palavras suas na minha boca. Mas acho que sim, para ela seria isso, truca-truca, vai e vem, o que queira. Para ele não sei, talvez fosse só por causa do pilim, o dito carcanhol.
-De modo que, diz você, ele andava atrás do guito?
- Uma nota de cem aqui, uma gravata de seda ali, o gajo era um cromo, investia na fachada, lustrava a frontaria.
- E ela?
- Ela gostava da loja, o marmanjo vendia artigo especializado.
- Ferormonas...
- Isso - o sr. Macjeito deixou passar a gaffe do outro - apostava na cambalhota, tinha um lado secreto.
- Vai daí, evaporaram-se os dois. E agora o marido paga-me para a encontrar.
- E você - "Cara de besugo, o outro tinha cara de besugo, avermelhada e tudo" - quer que eu o ajude a si...
- Que trace o perfil psicológico dos dois, que me ajude a analisar os dados e a compreender as suas motivações.
- Pois. Para já podemos excluir o amor desta história. Além disso, é um bitaite meu, pode bem ser que encontremos um cadáver no meio desta trapalhada. Ou até dois.
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28 março 2007
27 março 2007
26 março 2007
SALAZAR... (HUMOR SOBRE HUMOR)
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Daqui a uns anos, quando a pergunta sacramental fôr - Onde é que tu estavas na noite em que elegeram Salazar?, eu vou pôr um sorriso e responder - Na net, a combater.
-Ah, sim? E o que é que fizeste?
E eu, orgulhoso, vou poder dizer - Elegi o tipo do papel higiénico preto!
O pior é que, nestas coisas do humor, nunca nos levam a sério.
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Daqui a uns anos, quando a pergunta sacramental fôr - Onde é que tu estavas na noite em que elegeram Salazar?, eu vou pôr um sorriso e responder - Na net, a combater.
-Ah, sim? E o que é que fizeste?
E eu, orgulhoso, vou poder dizer - Elegi o tipo do papel higiénico preto!
O pior é que, nestas coisas do humor, nunca nos levam a sério.
O LIVRO DOS BONS PRINCÍPIOS (XLI)
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Havia um paísinho tristonho e enfadonho onde os seus habitantes tinham o estranho costume de andar sempre em marcha-atrás. Com a passagem do tempo adquiriram uma estranha deformidade no pescoço que os impedia de olhar para a frente, a não ser por breves períodos.
Nas escolas, nas empresas, nas reuniões, nos cafés, à mesa, durante as refeições, etc., estavam sempre de costas uns para os outros. Esse facto, aliado às dores que sentiam nos braços por, para verem o que faziam, realizarem a maior parte das tarefas ao contrário, dava-lhes uma má-disposição permanente e grande descrença nas suas capacidades.
Como resultado de tudo isto tornou-se mais fácil destruir do que construir, isolar do que reunir, desconfiar do que apoiar. Recebiam bem e manifestavam certa simpatia pelos estrangeiros que, esforçando-se, aprendiam rapidamente a andar em marcha-atrás. Em contrapartida sentiam algum ultraje e desconforto perante aqueles que teimavam em preservar costumes como caminhar ou olhar em frente.
A população ria-se muito quando um deles dizia - Isto é um paísinho cinzentonho e medonho -, achava graça, batia palmas atrás das costas, havia logo quem acrescentasse - merdonho, amigo, paísinho merdonho - e ouviam-se mais palmas batidas atrás das costas. Mas se era um estrangeiro a dizer as mesmíssimas palavras, olhavam-no de frente e ensaiavam um remoque meio engasgado. Olhar alguém de frente enquanto se ensaia um remoque meio engasgado era, no paísinho, o maior sinal de desprezo que se podia dar a outro.
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hoje aqui, amanhã no
25 março 2007
Grandes Portugueses Anónimos (Especial)
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Para os meus amigos São e Pedro
Antecipando-se a um programa de televisão que hoje elegerá um português - ver-se-á se dos grandes ou dos pequenos - o Afinador, numa clara jogada de antecipação, vai agora nomear o maior dos Grandes Portugueses Anónimos Vivos.
Sabendo-se que o anonimato é, hoje, uma das qualidades mais difíceis de alcançar, o Afinador de Sinos decidiu promover a Anónimo uma pessoa cujo nome se conhece, tal a importância e o modo como uma realização sua o destacou dos demais.
Poupem-se os encómios e evitem-se as loas, palavra alguma iluminará suficientemente a sageza, a visão e a subtileza deste Português.
O incontestado e nada polémico vencedor do prémio Grande Português Anónimo Vivo é, nem mais, nem menos, a pessoa que concebeu e lançou o mundialmente famoso - símbolo de bom gosto, elegância e distinção - papel higiénico preto.

23 março 2007
Reordenar o mundo...
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A estupidez não tem limites e não pára de nos surpreender, especialmente quando pensamos que já perdemos toda a ingenuidade. Eu também lhes chamaria fascistóides. Mas desafio Francisco José Viegas a mostrar onde está a palavra ecologistas neste artigo.
Grandes Portugueses Anónimos (VII)

Poderia ter sido qualquer um e ter nascido em qualquer época. Sabe-se que as suas invenções resistiram ao sinal dos tempos, aos regimes, às tendências políticas e se tornaram uma espécie de tatuagem na alma portuguesa, seja isso o que for.
Surgem onde quer que exista meia dúzia de portugueses e medram fortemente em latitudes e condições bastante diversificadas, como se pode aquilatar facilmente em todos os países que praticam a lusofonia.
Abram alas à sua passagem e curvem-se respeitosamente os milhões que lhe são devedores. Aceita-se como legítimo o pensamento de que alguém sem méritos próprios, sem rasgos de espírito, sem independência, sem noção de cidadania, só pode tornar-se grande entre um povo muito pequeno. Mas reconhece-se que instituiu uma marca indelével e permanente que justifica a sua nomeação como Grande Português Anónimo.
Falamos do homem que inventou não uma, mas duas instituições das quais depende, desde há séculos, a estabilidade da nação: a cunha e o tacho.

22 março 2007
21 março 2007
provavelmente, a árvore portuguesa mais antiga.
Pode ser visitada em Pedras d'el Rei, Cabanas, concelho de Tavira.
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Já agora saiba-se que esta lista existe, que a retirei de um blog
chamado Dias com árvores, e que a dita lista deveria continuar a crescer.
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No Algarve, além da oliveira da foto, podem encontrar-se ainda estas
poesia - dia da
o meu colega fernando pessoa
cultivava a heteronimia.
compreendo-o. não é porém
o meu caso.
eu cultivo ser eu, nada mais,
nada menos. partir de mim e
regressar a mim, ou,
como tem acontecido, partir de mim
e não regressar a esse. deixar o mim
de ser o tal. passar o mim a ser
outro. de cada vez que fala o outro
dizer eu. às vezes dizer eu e não saber
qual o mim que fala. eu escolhi
o mais simples: ser,
apenas, quem for.
o meu colega fernando pessoa
escolheu a heteronimia.
será que o compreendo?
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cultivava a heteronimia.
compreendo-o. não é porém
o meu caso.
eu cultivo ser eu, nada mais,
nada menos. partir de mim e
regressar a mim, ou,
como tem acontecido, partir de mim
e não regressar a esse. deixar o mim
de ser o tal. passar o mim a ser
outro. de cada vez que fala o outro
dizer eu. às vezes dizer eu e não saber
qual o mim que fala. eu escolhi
o mais simples: ser,
apenas, quem for.
o meu colega fernando pessoa
escolheu a heteronimia.
será que o compreendo?
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20 março 2007
O dia 20 de Março de 2003 foi um bom dia para os produtores de champanhe francês. Por cá também saltaram muitas rolhas, nomeadamente em São Bento. Mas Durão Barroso não foi o único a sustentar a invasão que o império de pés de barro dava antecipadamente por vitoriosa. Eu, a esta distância, ainda oiço as rolhas de Morais Sarmento, Vasco Rato, Luís Delgado, e tantos outros que, entretanto, optaram pelo low profile que hoje cultivam sobre o assunto.
Talvez valha a pena, porque eles têm nome, repetir aqui esta pergunta.
18 março 2007
O LIVRO DOS BONS PRINCÍPIOS (XL)
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Frei Bernardo Xavier tinha dificuldades em manter os votos de silêncio quando bebia um copinho a mais de vinho de missa. Essa era, de resto, a única mácula que os seus piedosos irmãos lhe apontavam nos raros momentos em que falavam, entre si, sobre si próprios. No mais era frugal e diligente, activo e sempre pronto a ajudar o próximo. Penitenciava-se cuidando como nenhum outro das rosas, camélias e vinhas do convento. Envergonhava-o moderadamente a sua simpatia pelo vinho, especialmente o fino e doce que usavam nas celebrações, e aplicava-se com esforçada devoção na poda das videiras, na selecção das castas, na escolha dos bagos, na maceração do mosto.
O viciozinho do vinho era o único traço que o ligava à sua existência anterior, à outra vida que tivera. Nunca, antes ou depois, fora do género contemplativo e meditabundo, os mistérios da criação e a redenção das almas ficavam ao cuidado dos seus colegas mais místicos e mais dados às questões espirituais. Retirara-se do mundo e enclausurara-se ali porque jamais fora capaz de esquecer o olhar desesperado daquela mulher a quem, não a podendo amar, amara doentiamente.
Não fora um amor vulgar, semelhante a tantos outros amores proibidos. Quando ela lhe lançou o olhar que para sempre o atormentaria, já os dois frascos de veneno para ratos estavam vazios, já os seus orgãos rebentavam por dentro, já o seu adeus entrava na eternidade. Estava-se no início da primavera de mil novecentos e sessenta e sete...
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compra-se aqui às segundas
e no
às terças
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16 março 2007
Caruso - Gigi Finizio Lucio Dalla Gigi D'Alessio
Arrumar a oficina dá nisto! Uma colecção de sinos italianos já velhinos que o Afinador guardou há muito tempo, ma tanto, tanto tempo. Gli voglio bene, sai?
Paolo Conte - sotto le stelle del Jazz
O Afinador andava a arrumar a oficina e encontrou este velho sino perdido a um canto. Limpou-lhe o pó e pô-lo a uso. Não precisava de afinação.
14 março 2007
Grandes Portugueses Anónimos (VI)
É o mais anónimo de todos os que aqui trazemos.
Ter-se-á destacado terçando armas junto do ainda imberbe Afonso Henriques. Ganhou, aos olhos do futuro rei, ascendente suficiente para um dia, provavelmente uma noite, lhe dizer:
- Deixa a tua mãe em paz, Afonso, não é bonito continuares a bater-lhe. Bater por bater, vamos passar a ferros aqueles morenos lá de baixo, divertimo-nos na mesma e ficas mais bem visto junto do resto da família.
Afonso tê-lo-á olhado em silêncio, sem responder.
- E, ainda por cima, aproveitas e fazes um reino, é bastante melhor do que um condado. Chamar-te-emos rei, faremos da tua mulher, quando a tiveres, nossa rainha, terás maior legitimidade para bater em quem te der na veneta, só o Papa e o Arcebispo de Braga te poderão repreender.
A frase de D. Afonso, que não sendo ainda monarca não dispunha de cronista privado, atravessou os tempos:
- Bora lá, bora já, tamos nessa.
A esse Grande Português Anónimo agradeceu encarecidamente D. Teresa pela valia dos seus conselhos junto do filho. Caso contrário o rapaz haver-se-ia precipitado sobre a Galiza, Astúrias, Leão...
A actual pressão populacional sobre o litoral faz com que todos nós lhe devamos um agradecimento especial e o resgatemos das malhas do olvido. Foi ele, afinal, que ofereceu a grande parte da população portuguesa o magnífico pôr-do-sol sobre o mar.
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foto gentilmente roubada a MRF
13 março 2007
12 março 2007
O LIVRO DOS BONS PRINCÍPIOS (XXXVIII)
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Caíra uma vaca na praia e os homens da aldeia discutiam entre si como haviam de a remover. O animal aproximara-se demasiadamente da falésia, o chão cedera sob o seu peso e viera cá parar abaixo.
Tratava-se de uma pequena aldeia junto à Enseada dos Milagres, na Ilha das Tempestas. Pelos vistos acontecera novo milagre, já que a vaca não sofrera um único arranhão depois de uma queda de quase vinte metros.
A aldeia não dispunha de uma grua capaz de a içar e devolver ao pasto, o bicho recusava-se a subir a escadaria tosca que as pessoas utilizavam. Alguém trouxera um bote baixo e largo que se revelara inútil, havia já quem achasse que só morta e retalhada em quartos se poderia recuperar a carne, todo o restante trabalho seria pura perda tempo.
Foi então que surgiu o estrangeiro. Era um homem alto, louro, falava uma língua eslava que ninguém compreendia e, em vez de palavrear, arregaçou as mangas, explicando-se por gestos. Seriam necessárias cordas, o homem fez o gesto de alguém enforcado, um tronco, o viajante desenhou uma árvore na areia e retirou-lhe os ramos, e uma roldana, "disse" ele rodando os indicadores, um sobre o outro. Não era momento para desconfianças e reservas, e a gente da aldeia foi-se unindo e seguindo as suas indicações. Quando a vaca regressou ao lugar que lhe pertencia e foi pacatamente juntar-se às outras, todos o olharam como se fosse um deles. Foi por essa razão que ele, pouco a pouco, ano após ano, se tornou um tempestino e deu origem a uma prole que se destacou no governo e nos negócios da ilha.
A filha mais velha...
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continua amanhã no Divas & Contrabaixos
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09 março 2007
Grandes Portugueses Anónimos (V)
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O frade gordo e rechonchudo estava radiante.
- Uma iluminação divina, irmão, uma luz dos céus!

O frade gordo e rechonchudo estava radiante.
- Uma iluminação divina, irmão, uma luz dos céus!
O outro, um homenzinho seco e escanzelado, de pele cinzenta e olheiras arroxeadas, olhou-o de lado, fazendo reluzir a sua enorme tonsura.
- Vai ao mestre pasteleiro, irmão, e pede-lhe meio quilo de massa folhada. - disse o gordo, saltitando.
- Foi mesmo Ele que te proporcionou a iluminação, ou só me queres dar trabalho?
- E de caminho traz-me oito gemas de ovo, meio quilo de açucar, limão, um copo de água grandinho, olha, traz dois, que um bebo eu, um litro de leite e duas colheres de sopa de farinha de maisena.
- E de caminho traz-me oito gemas de ovo, meio quilo de açucar, limão, um copo de água grandinho, olha, traz dois, que um bebo eu, um litro de leite e duas colheres de sopa de farinha de maisena.
- Tens mesmo a certeza que foi Ele quem te iluminou? - perguntou o outro contrariado, enquanto se afastava ruminando uma novena.
O frade gordo foi esperando sentado até ter os produtos à sua frente.
- Ora bem, vamos lá a ver... Com a água e o açucar faz-se uma calda até atingir o ponto de espadana. Entretanto tu, irmão José, forras umas formazinhas pequenas com a massa folhada, com devoção e paciência que a inspiração é do alto. Agora mistura-se a farinha, o leite, as gemas e pranta-se a casca de limão nesta massa. Depois, com cuidado, verte-se para dentro da calda e vai-se mexendo sempre até engossar. Tu, irmão, enches as formas forradas de massa folhada com este creme e evita comê-lo, não cedas à gula. Eu, a seguir, ponho-os no forno bem forte, até estarem bonitos e tostadinhos.
- Só isso? Foi isso a tua inspiração divina?
- Shh, espera até provares e guarda segredo, a receita não se pode divulgar.
- E como lhes vamos chamar?
- Mas não levam nata...
- Shhhhhh, esse é o segredo, irmão. No futuro talvez lhe venham a pôr natas e sabe-se lá mais o quê. Ouve, irmão, servimos o alto mas somos portugueses cá de baixo. O segredo é que os pasteis de nata não levam nata, assim enganamos a concorrência e ganhamos uns cobres para o convento.
O magricelas levantou os olhos e agradeceu. Agora sim, estava finalmente convencido de que a iluminação viera com certificado de autoria.

Esta revista fez anos ontem. A discussão é antiga, uns de nós dizem que fez 28 anos, outros 29. A conclusão é que se envelhece depressa.
08 março 2007
DIA INTERNACIONAL DA MULHER
*Homens e Mulheres que não sejam facilmente impressionáveis
vejam estas imagens
e seguintes
06 março 2007
Grandes Portugueses Anónimos (IV)
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É hoje pacífico que se tratava de uma mulher, apesar do aceso debate que existiu ao longo dos tempos entre antropólogos e historiadores.
Imaginamo-la com o bigode já um pouco grisalho e com a barba escondida pelo lenço que usava amarrado debaixo do queixo. Terá visto a luz coada pelos fumeiros de Montalegre, ou reflectida nas escarpas enegrecidas de Pitões das Júnias, ou afagando os granitos arredondados de Montemuro.
Foi a grande estilista da sua época. Sem ela Humphrey Bogart não teria sido Humphrey Bogart, os detectives não usariam gabardinas, os impermeáveis não existiriam, os gauleses desconheceriam o actual significado da palavra griffe, Fátima Lopes permaneceria ancorada no seu rochedo natal. Sem as suas bochechas coradas e sem o seu sorriso desdentado o conceito contemporâneo de bio-arte estaria por inventar, a indústria têxtil daria ainda os primeiros passos.
Paris e Milão aproveitaram o seu contributo para a História melhor do que Lisboa, incapaz de avaliar a real dimensão do seu génio, e permanecerá, cá como lá, anónima até ao findar dos tempos.
Ganhou, pelo seu inquestionável bom-gosto, pelo atrevimento das suas propostas e pela sua lendária noção de espectáculo, o direito de ombrear com os raros Grandes Portugueses Anónimos, a autora e criadora da capa de burel e da croça de juncos.

Grandes Portugueses Anónimos (III)
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Foi, projectando a sua sombra na planura alentejana quando ousava caminhar sob o sol, o pai da ecologia moderna. Homem de grande visão, prenunciou a política dos três erres e compreendeu os perigos da destruição da camada de ozono por libertação dos CFC. Trisavô dos frigoríficos contemporâneos, tetravô do micro-ondas, avô da garrafa termo dos nossos dias, retirou matéria-prima das árvores sem as abater. O design, como disciplina futura, não lhe era estranho.
Foi, projectando a sua sombra na planura alentejana quando ousava caminhar sob o sol, o pai da ecologia moderna. Homem de grande visão, prenunciou a política dos três erres e compreendeu os perigos da destruição da camada de ozono por libertação dos CFC. Trisavô dos frigoríficos contemporâneos, tetravô do micro-ondas, avô da garrafa termo dos nossos dias, retirou matéria-prima das árvores sem as abater. O design, como disciplina futura, não lhe era estranho.
A mulher de pêlo na venta que lhe deu os filhos preparava-lhe a açorda e ele comia-a ainda quente nos montes, remediava-lhe um gaspacho e ele papava-o fresquinho sob a copa do chaparro.
A justiça ecológica chegou tarde e só agora reconhecemos a pertinência de figurar entre os Grandes Portugueses Anónimos o visionário e primeiro utilizador do cucharro e do tarro.

05 março 2007
O LIVRO DOS BONS PRINCÍPOS (XXXVI)
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Cheguei a casa e descobri que estava morto, substituído e em vias de ser esquecido.
Marta, a minha mulher, encontrara em Jim um novo marido e Júlia, minha dilecta filha, via nele um novo pai. Além disso havia Charlie, filho de Jim. Sentámo-nos à mesa ( a minha antiga mesa, na sala da minha antiga casa ) e conversámos. Chorámos todos, até Jim, que me pareceu ser um tipo às direitas. Marta e Júlia, passado o susto, ficaram contentes por me ver. Fui ultrapassado por Jim no coração de Marta e penso que terei que me habituar a isso, mas não quero que Júlia esqueça quem é o seu verdadeiro pai.
É principalmente por ela que me sento neste limbo onde me encontro, para escrever, ponto por ponto, todas as recordações dos quatro anos de amnésia por que passei.
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sai aqui às segundas
e no Divas & Contrabaixos às terças
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02 março 2007
Grandes Portugueses Anónimos (II)
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É provável que fosse ribatejano e que o acometimento que o transformou num Grande Português se tenha passado em plena lezíria.
Ter-lhe-á acontecido um momento de distracção, ou de soberba, ou de fanfarronice. O certo é que lhe bastou uma fracção de segundo para decidir se morria perfurado e sem glória ou se ganharia a História, ainda que anonimamente.
O bicho investia desenfreado e não havia esconderijo que fosse viável. O homem olhou os cornos e, num relance, tirou-lhes as medidas. Entre o esquerdo e o direito havia espaço para um tipo que não se excedesse de cintura. No momento seguinte revolteava no ar, agarrado com unhas e dentes à cabeça do chifrudo. O animal sacudia-se, o indígena resistia, o bicho insistiu até estacar de cansaço e surpresa. O nosso homem olhou-o de frente e foi-se afastando às arrecuas. Quando a distância lhe pareceu suficiente fugiu a sete pés, com uma velocidade digna de um descendente de Viriato.
Dirigiu-se à primeira tasca e entrou nela, ufano e gabarolas, com o rei na barriga e restos de pelo de bovino nos beiços.
Prometeram-lhe um jarro de vinho e uma sandes de courato se repetisse a proeza. Aceitou, desde que os outros o seguissem para testemunhar o feito. Os tais, sem árvores por perto para se esconderem, puseram-se em fila, o de trás a tentar que o da frente o tapasse, cada um com mais medo do que o próximo. O da frente, saboreando já o courato e a pomada, encheu-se de ar e pôs-se a gritar olés, de mãos nos quadris, a provocar a besta.
O resto da história conhece-se e, em tempos politicamente menos correctos, o gesto do anónimo correu o mundo como cartaz de promoção do país.
O nosso Grande Português, num improviso genial e repentino, acabara de descobrir a Pega de Caras.
01 março 2007
Grandes Portugueses Anónimos
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O Afinador de Sinos, nestes tempos em que se discutem portugueses de todos os tamanhos, vai recordar alguns grandes, anónimos, inventores, patuscos e descobridores de mundos que o mundo ignora.
A lista não segue qualquer critério, a não ser o velho critério português de não seguir critério algum.
- É um prato improvável para não lhe chamar inimaginável. A verdade, contudo, é que um português o imaginou. Lembrou-se o indígena de misturar favas, gordura e sangue de porco, uma pouca de açucar, coentros, hortelã,sal e rama de alho e acompanhar este conduto com peixe frito. Pode-se não acreditar mas estes ingredientes casam na perfeição e o tempo das favas frescas está a chegar. Homenageie-se, pois, o anónimo inventor das favas com peixe frito:
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1 Kg de favas descascadas
200g de toucinho
1 morcela média
2 colheres de sopa de azeite
2/3 folhas de hortelã
rama de alho
coentros
2/3 colheres de chá de açucar
sal grosso
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Cozem-se todos os verdes juntamente com o azeite e o sal. Devem cozer-se em pouca água, não os chegando a cobrir. Corta-se o toucinho aos bocados e frita-se na sua própria gordura. Junta-se-lhe, um pouco mais tarde, a morcela cortada às rodelas. Verte-se esta fritada e seu unto sobre as favas cozidas e mexe-se tudo até envolver, deixando apurar alguns minutos. Serve-se acompanhado de sardinha frita, ou peixe misto frito, e salada de alface.
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Só um Grande Português poderia ter inventado uma coisa destas. Não deslustraria se figurasse na capa de qualquer almanaque de História Universal. Imaginação e ousadia, a sério, é isto.
28 fevereiro 2007
27 fevereiro 2007
a confirmação (em três passos)
I
Primeiro veja-se a beleza destas imagens, para que se saiba do que falamos.
II
Agora compare-se esta fotografia (que tem apenas meia dúzia de anos)

com esta (mais recente mas já algo desactualizada)

III
Finalmente leia-se, com a devida vénia, este parágrafo do seu presidente no último Boletim da Câmara Municipal de Lagos:
"A par da Meia Praia outras áreas, como o Porto de Mós e a Ponta da Piedade, têm também sido alvo de propostas enriquecedoras e ambientalmente equilibradas, trazendo sérias e boas perspectivas de criação de emprego qualificado, o que contribuirá significativamente para a fixação de jovens e para o bem estar das famílias que irão bebeficiar desses novos postos de trabalho."
É a confirmação oficial, por detrás do embrulho das palavras. A Ponta da Piedade está condenada.
26 fevereiro 2007
O LIVRO DOS BONS PRINCÍPIOS (XXXIV)
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Matteo Cigogna, jovem escritor com uma novela e um romance publicados, o último dos quais com sucesso mediano, discutia entediadamente com o seu editor.
- Repito que é essa a frase que eu quero, assim mesmo, sem tirar nem pôr. Não vê que é esplêndida?
- Olhe-se bem para uma sardinha. Olhe-se bem para uma sardinha... - repetia o editor - Isto é lá frase para começar um romance! Já pensou nos leitores que uma frase destas afasta?
- É brilhante. Bri-lhan-te. É o melhor início de romance que se pode imaginar.
- E, depois, isto: Olhe-se e, por uma vez, veja-se a sardinha, demoradamente, atenciosamente, como nunca... Você acha que alguém quer ler isto?
- Isto, como diz, é precisamente o que eu quero escrever.
- Mas você quer contar a história da tal Sara, ou quer escrever um manual de pesca?
- Se ler com atenção verá que, adiante, é Sara que pensa que nunca alguém olhou verdadeiramente para si. É ela que faz a comparação, a imagem é dela: "uma espécie de sardinha".
- E que espécie de mulher se sente sardinha?, pergunto eu. - os olhos do editor trespassavam o corpo mole do escritor - Além do mais, depois de um início desses, ninguém chega a ler essa tal parte, desistem antes, não chegam a comprar o livro.
- Eu gosto da frase, acho que desperta a curiosidade, uma pess...
-Olhe-se bem para uma sardinha. Olhe-se bem para uma sardinha. Olhe-se bem... e esta coisa do atenciosamente, blá, blá, blá, e por aí fora. Ó homem, tenha paciência! Mude lá a porcaria do princípio, risque-o, faça o que quiser, mas arranje-me outro princípio, arranje, de preferência, um princípio que seja bom.
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sai hoje aqui
às terças no Divas & Contrabaixos
e não se sabe quando
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24 fevereiro 2007
Zeca Afonso (II)
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Passados alguns anos (porque a morte dele demorou muitos anos a consumar-se e, de certo modo, a outro nível, ainda não aconteceu) ouvi na rádio a notícia do seu passamento. Não consigo lembrar-me do sítio ( cidade ) onde estava. Recordo que me ocorreram estas palavras da Balada do Outono:
Águas
Das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu nao volto
A cantar
e que foi então que eu comecei chorar.
23 fevereiro 2007
Zeca Afonso

Vi-o sobre o palco algumas vezes e falei com ele duas ou três. Na última já o Zeca estava doente e estava sentado num banquinho na Av. D. Carlos I, entre a Era Nova e a Culturona ( algum destes nomes vos é familiar? ). Estávamos uns quantos "putos" à conversa com o Zeca, ele contente por estar connosco. Lembro-me nítidamente da forma quase reverencial como falávamos com ele. Todos sabíamos que Zeca já ia a bordo do combóio descendente.
22 fevereiro 2007
E eu até ando a deixar de fumar...
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Li que a Alemanha se prepara para proibir que se fume no interior dos automóveis, alegadamente porque fumar distrai os condutores e porque se trata de um lugar fechado com elevada concentração tóxica.
Será verdade. Mas imagine-se, por exemplo, um fumador solitário que seja o único passageiro do seu automóvel. Pois estará proibido de acender o cigarro já que alguém, num ministério, se preocupa com a sua saúde.
Não basta perguntar quem nos salva desta gente que nos quer salvar de nós mesmos. Eu, entre outras questões, pergunto quanto tempo falta até que venham dizer que o fazem em nome da nossa liberdade e para a proteger do mau uso que fazemos de um bem cujo valor eles sabem avaliar, em nosso nome, melhor que nós.
E, quando protestarmos, ainda vão acabar por nos chamar ingratos. .
Li que a Alemanha se prepara para proibir que se fume no interior dos automóveis, alegadamente porque fumar distrai os condutores e porque se trata de um lugar fechado com elevada concentração tóxica.
Será verdade. Mas imagine-se, por exemplo, um fumador solitário que seja o único passageiro do seu automóvel. Pois estará proibido de acender o cigarro já que alguém, num ministério, se preocupa com a sua saúde.
Não basta perguntar quem nos salva desta gente que nos quer salvar de nós mesmos. Eu, entre outras questões, pergunto quanto tempo falta até que venham dizer que o fazem em nome da nossa liberdade e para a proteger do mau uso que fazemos de um bem cujo valor eles sabem avaliar, em nosso nome, melhor que nós.
E, quando protestarmos, ainda vão acabar por nos chamar ingratos. .
20 fevereiro 2007
19 fevereiro 2007
O LIVRO DOS BONS PRINCÍPIOS (XXXIII)
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Na origem de tudo esteve um olhar cruzado, e foi o pior que podia ter-me acontecido.
Na origem de tudo esteve um olhar cruzado, e foi o pior que podia ter-me acontecido.
Na cidade onde moro, na província, não se faz festejo, manifestação ou procissão que dispense atafulhar a minha rua com a sua presença. Eu regressava a casa a meio da tarde e lutava duramente para atravessar a turba infrene, escorregava entre corpos suados e ruidosos, esquivava-me em direcção contrária à alegria postiça daquela massa amarfanhada de corpos bamboleando-se. Devo dizer que sou algo avesso a multidões com elevado grau de excitação e procurava despachar-me.
Tentei furar por um Osama Bin Laden que, saltitando frenético e agressivo, me impedia a passagem pondo-se no meu caminho. A cara dele fitava-me sem mudar de expressão, com um ar de gozo insistente e parvo. Atrás do idiota vinha um palhaço trazendo o Papa e George Bush pela mão. Bush apresentava-se de fraldas, do pescoço pendia uma chupeta enorme que lhe caía sobre o umbigo, e o Papa, com a mão livre, abençoava os mirones curvando-se ligeiramente a cada abençoadela. Uma odalisca hirsuta e musculosa aproximou-se do palhaço e eu vi-o dobrar-se repentinamente sobre si próprio, agarrando o ventre com ambas as mãos. Bush e o Papa, sentindo-se libertos das mãos do palhaço, prosseguiram dançando alegremente, cada um para seu lado. A odalisca voltou-se na minha direcção e os nossos olhares cruzaram-se no meio do carnaval. Foi então que ele viu que eu tinha visto, e que eu vi que ele viu que eu vira. Eu, contudo, estava ainda muito longe de imaginar os problemas que vinham de começar.
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às segundas aqui,
terças no Divas & Contrabaixos
quartas no Ponto.de.Saturação
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16 fevereiro 2007
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O Afinador tem andado um pouco ausente da blogosfera. Significa que a vida real se tem sobreposto à virtual. É bom sinal.
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Os lisboetas são uns belos idiotas! Não é que bastava alguém ter-lhe perguntado: -Podemos confiar em si? O homem tinha respondido que não e estava o assunto arrumado.
Mas como ninguém perguntou...
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14 fevereiro 2007
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Se a falta de vergonha valesse pontos Fátima Felgueiras ganharia destacada os Grandes Portugueses. A "senhora" fez tantas que se acredita que tenha um dedo nisto, ainda que o seu advogado o venha negar. Substitua-se a palavra Felgueiras por Fátima. A falta de vergonha mantinha-se, mas a hipocrisia diminuía.
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13 fevereiro 2007
12 fevereiro 2007
O LIVRO DOS BONS PRINCÍPIOS (XXXI)
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Nota do autor: o livro que se segue é uma obra de ficção.
Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência.
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I
-Eu podia dizer que sou licenciado sem ser, porra, mas até é verdade que sou. Elas também, mas tu vês pelos interesses, pelos erros ortográficos, pela forma como as gajas se exprimem. Inscrevo-me como licenciado, portanto, e isso permite logo uma certa selecção. Depois escolhe-se a idade: para mim entre os vinte e cinco e os cinquenta anos. Prefiro as de trinta e tal, mas já me apareceu uma cinquentona com um corpo de vinte. A cara não era lá grande coisa mas a tipa era porreira e, no fundo, é tudo uma questão de iluminação. E tinha cá uma experiência... Aquela coisa do vinho do Porto é mesmo assim...Depois os interesses: literatura, cinema, natureza, estás a ver?
Quando se acha que vale a pena vai-se à gaveta e manda-se um poema, por acaso até tenho uma meia-dúzia bem esgalhada, e, pronto, é vê-las cair. Quando eu era puto não era bem assim. Já fodi mais gajas com a internet do que em toda a minha vida anterior.
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sai no Afinador de Sinos às segundas
no Divas & Contrabaixos às terças
no Ponto.de.Saturação às quartas
09 fevereiro 2007
08 fevereiro 2007
A posição de cada um relativamente ao referendo sobre o aborto pertence ao próprio e a quem este decidir consultar sobre o assunto. É, portanto, uma questão de consciência individual.
Penso, no entanto, que a consciência não é uma entidade etérea e abstracta, mas sim o resultado de posições filosóficas, éticas, sentimentais e de posições mais prosaicas como desejar ou não um filho, sentir-se ou não à altura de o educar dignamente, penalizar ou não quem tenha práticas e posições divergentes.
Aceitar a voz da consciência individual significa rejeitar grande parte da argumentação que, por estes dias, atulha a comunicação. A questão não é sobre quando começa a vida, nem sobre o aumento ou diminuição da população, nem sobre "pedir desculpa à sociedade" em vez de outro tipo de penalização.
O problema é saber se uma pessoa pode ser obrigada a gerar outra pessoa se achar que não o deseja, que não o sabe fazer responsavelmente, que, por variadíssimas razões, não o pode fazer, e se a sociedade pode, finalmente, decidir por ela impondo-lhe a maternidade.
Eis porque, pesadas as razões e atendidos os meus valores de índole ética e espiritual, em consciência, estou do lado do sim.
07 fevereiro 2007
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- O problema das coisas imprevisíveis - diria o sr. Anacleto da Cruz - é não se poderem prever com antecedência.
Foi o que aconteceu com esta longa ausência do Afinador.
Foi o que aconteceu com esta longa ausência do Afinador.
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LXXIII
Nenhuma esfera era redonda antes de o ser.
LXXIV
Vai, deixa-te ir nas asas do sonho. Mas transporta contigo um pára-quedas que seja real.
Nenhuma esfera era redonda antes de o ser.
LXXIV
Vai, deixa-te ir nas asas do sonho. Mas transporta contigo um pára-quedas que seja real.
do Caderno de Pensamentos do Sr. Anacleto da Cruz
30 janeiro 2007
29 janeiro 2007
O LIVRO DOS BONS PRINCÍPIOS ( XXVIII )
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"- Tinhas a ideia de que os teus amigos se moveriam por ti quando chegasse a altura? Tinhas essa ideia, meu idiota? Pois fica sabendo que os teus amigos movem-se apenas por si próprios, percebes?, movem-se por si até que tu tenhas algo para lhes oferecer, só então mexerão o cu por ti, se isso não os desinstalar demasiadamente, meu pedaço de asno. Queres alguém que acredite em ti, alguém que possa, por um momento, respeitar-te, alguém que, num relance, vejas a teu lado? Procura entre quem não te conheça, sonso, entre quem não adivinhe o teu sorriso desengonçado, não tope o teu humor à distância, não tenha convivido ainda com o teu mau hálito. Procura junto de quem não te materialize, junto de quem não esteja presente quando te peidas, quando tiras macacos do nariz e os colas debaixo da cadeira. Busca na net, por exemplo, talvez haja quem te siga, quem se esforce, quem te idealize, quem goste, até descobrir que não, um bocadinho da besta que és..."
Foi com estes pensamentos que Licínio acordou na manhã do dia vinte e seis de Novembro. É certo que o tempo, lá fora, estava bastante merdoso, uma nevrinha capaz de ensombrar o amor próprio de qualquer um.
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"- Tinhas a ideia de que os teus amigos se moveriam por ti quando chegasse a altura? Tinhas essa ideia, meu idiota? Pois fica sabendo que os teus amigos movem-se apenas por si próprios, percebes?, movem-se por si até que tu tenhas algo para lhes oferecer, só então mexerão o cu por ti, se isso não os desinstalar demasiadamente, meu pedaço de asno. Queres alguém que acredite em ti, alguém que possa, por um momento, respeitar-te, alguém que, num relance, vejas a teu lado? Procura entre quem não te conheça, sonso, entre quem não adivinhe o teu sorriso desengonçado, não tope o teu humor à distância, não tenha convivido ainda com o teu mau hálito. Procura junto de quem não te materialize, junto de quem não esteja presente quando te peidas, quando tiras macacos do nariz e os colas debaixo da cadeira. Busca na net, por exemplo, talvez haja quem te siga, quem se esforce, quem te idealize, quem goste, até descobrir que não, um bocadinho da besta que és..."
Foi com estes pensamentos que Licínio acordou na manhã do dia vinte e seis de Novembro. É certo que o tempo, lá fora, estava bastante merdoso, uma nevrinha capaz de ensombrar o amor próprio de qualquer um.
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O LIVRO DOS BONS PRINCÍPIOS
às segundas aqui
terças no Divas & Contrabaixos
quartas no Ponto.de.Saturação
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Imagine o leitor-autor que pretende escrever um livro e não sabe por onde, nem como, começar. O LIVROS DOS BONS PRINCÍPIOS proporciona-lhe uma vasta gama de princípios para conto, novela ou romance que o leitor-autor poderá seleccionar livremente. Depois terá apenas que escrever o resto demorando o tempo que entender.
28 janeiro 2007
26 janeiro 2007
25 janeiro 2007
24 janeiro 2007
Às minhas "colegas" MRF e Inominável:
Conheço um livro que aborda de forma muito mais dura e crua o assunto do meu último Bom Princípio. Chama-se "Nada mais enganador que o coração", de J. T. Leroy, de quem se pode ler também um blog, especular sobre a sua identidade, etc.
É um livro daqueles que têm bolinha no canto superior direito, absolutamente desaconselhável a pessoas que não suportam literatura sem rodriguinhos, cruel, violenta, no fio da navalha.
A vocês, e aos outros, aconselho vivamente, com a certeza de que vão levar muitos murros no estômago.
Não se trata de um "livro negro". Trata-se, a sério, de um buraco negro, capaz de sugar a inocência e a credulidade de leitores desprevenidos
23 janeiro 2007
22 janeiro 2007
O LIVRO DOS BONS PRINCÍPIOS ( XXVI )
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O homem estende uma nota de cinco euros e eu pego nela sem dizer nada. Tenho medo que ele se zangue se eu disser alguma coisa. Ainda me dói aquilo que ele me fez. Ainda me faz impressão a língua dele dentro da minha orelha, a minha pele arranhada pela barba mal feita, o peso dele em cima de mim, mas eu tenho medo de chorar e não choro. O homem disse que me ia dar uma Barbie e era mentira, disse que trocava a Barbie pelas minhas cuecas e era mentira, disse que era a Barbie mais rara do mundo e não era verdade. Agora olha para mim, manda-me vestir as cuecas e dá-me uma palmada no rabo enquanto solta uma gargalhada assustadora. Eu não as quero vestir por cima do sangue que mancha as minhas pernas mas tenho medo de lhe desobedecer. Ele veste-se, abre a porta e diz para eu sair sem que alguém me veja. Diz que me mata se eu contar alguma coisa e que mata os meus pais se eu lhes falar disto. Eu não lhe posso dizer que tenho medo de ficar aqui, com ele, nem que tenho medo de ir para casa, nem que tenho medo de que meus pais descubram o que se passou e ele os mate por isso. Não lhe posso dizer que tenho tanto medo, que nem me consigo mexer.
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sai em fascículos
aqui
e no Ponto.de.Saturação
18 janeiro 2007
A OFICINA DO AFINADOR
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Sinos Afinados
Chamava-se Goranka. Era croata e chegou a Portugal na sequência da guerra civil que desmembrou a Jugoslávia.
Sinos Afinados
Chamava-se Goranka. Era croata e chegou a Portugal na sequência da guerra civil que desmembrou a Jugoslávia.
Vinha cheia de energia e de vontade de fazer coisas novas. Pouco a pouco, os fantasmas - os da guerra e outros - começaram a assaltar a sua cabeça. Tinha alturas em que se julgava perseguida, imaginava espiões e aparelhos de escuta, inventava formas de se livrar deles. Às vezes falava nos pais e na sua Croácia. Perguntei-lhe muitas vezes porque não regressava, agora que a paz tinha voltado. Nunca quis.
Soube, hoje, que morreu. A Gora era minha amiga, foi sempre minha amiga. A Gora era, verdadeiramente, amiga dos seus amigos.
Podia ter, por vezes, um som estranho, com interferências dos fantasmas da torre, mas era um sino afinado. Deixou de tocar há dois dias.
17 janeiro 2007
16 janeiro 2007
15 janeiro 2007
O LIVRO DOS BONS PRINCÍPIOS (XXIII)
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-Ó mãe, ele tirou um macaco do nariz.
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-Ó mãe, ele é um porco, comeu o macaco.
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-Ó mãe, ele deu-me um pontapé.
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-Ó mãe, ele...
-Cala-te, estúpida. - Disse eu, e dei-lhe outro pontapé.
-Ó mãe, ele chamou-me estúpida - guinchou ela - e deu-me outro pontapé.
Odeio-a. O meu pai diz que ela é a minha nova irmã, mas eu não quero uma nova irmã. Eu já tenho a minha irmã Joana, que vive com a minha mãe verdadeira. Eu fiquei a viver com o meu pai porque em casa da minha mãe não havia espaço para montar a minha pista de automóveis de corrida. Pelo menos foi o que me disseram, mas eu já nem sequer brinco com a pista. Quer dizer, agora tenho uma Playstation que cabia na casa da minha mãe e é a isso que eu chamo uma grande verdade.
A Elsa diz que não quer ser a minha nova mãe porque eu já tenho uma, só quer ser a minha melhor amiga. Mas, então, porque é que a filha dela há-de ser a minha nova irmã? A Elsa dorme com o meu pai mas ainda tem uma casa dela. Não sei para quê, elas passam o tempo todo cá em casa. Ela tenta ser simpática mas não me engana. Vou fazer sete anos daqui a poucos dias, chamo-me joão e ela fala comigo como se eu fosse um bébé. Se o meu pai não se zangasse comigo, eu dizia-lhe que acho que ela é tão parva como a filha dela. Nenhuma delas sabe qual era o maior dinossauro que existiu, nem qual é o vulcão mais poderoso de todos. O meu pai sabe, mas também anda esquisito. Se calhar os adultos, quando se apaixonam, ficam todos parvos. Eu, quando for grande, se me apaixonar,...
...
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Produção conjunta
O Afinador de Sinos
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12 janeiro 2007
A OFICINA DO AFINADOR
Sinos desafinados
Apareceu, aqui na oficina, um sino desafinadíssimo. O Afinador tentou repará-lo, mas viu-se obrigado a devolvê-lo à procedência, juntamente com o diagnóstico:
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SEM CONSERTO.
ATENDENDO AO SEU TIMBRE, O MELHOR SERÁ FUNDI-LO.
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Tratava-se de um sino sem grande valor histórico. Ostentava uma decoração apimbalhada e um nome em relevo. Lia-se Rui Rio.
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Este Afinador descarta qualquer responsabilidade se, eventualmente, um outro putativo, ou auto-intitulado afinador, o pretender recuperar.
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11 janeiro 2007
A OFICINA DO AFINADOR
Sinos afinados
Gostei imediatamente deste poema de Filipa Leal:
ODE LOUCA
Todos os homens têm o seu rio.
Lamentam-no sentados no interior das casas
de interior e como o poeta que escreve a lápis
apagam a memória com a sua água.
Os rios abandonam os homens que envelhecem
longe da infância, e eles choram
o reflexo absurdo na distância.
Por vezes, enlouquecem os rios, os homens,
os poetas nas palavras repetidas
que buscam uma ode que lhes diga
a textura. Todos procuram o mesmo:
um lugar de água mais limpa
ou um espelho que não lhes negue
a hipótese do reflexo.
O rio sofre mais do que o homem,
o poeta,
porque dele se espera que nos devolva
a imagem de tudo, menos de si próprio.
Todos os rios têm o seu narciso,
mas poucos, muito poucos,
o simples reflexo das suas águas.
De A Cidade Líquida e Outras Texturas
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Gostei imediatamente deste poema de Filipa Leal:
ODE LOUCA
Todos os homens têm o seu rio.
Lamentam-no sentados no interior das casas
de interior e como o poeta que escreve a lápis
apagam a memória com a sua água.
Os rios abandonam os homens que envelhecem
longe da infância, e eles choram
o reflexo absurdo na distância.
Por vezes, enlouquecem os rios, os homens,
os poetas nas palavras repetidas
que buscam uma ode que lhes diga
a textura. Todos procuram o mesmo:
um lugar de água mais limpa
ou um espelho que não lhes negue
a hipótese do reflexo.
O rio sofre mais do que o homem,
o poeta,
porque dele se espera que nos devolva
a imagem de tudo, menos de si próprio.
Todos os rios têm o seu narciso,
mas poucos, muito poucos,
o simples reflexo das suas águas.
De A Cidade Líquida e Outras Texturas
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Desde então as boas críticas têm-se acumulado, como se verifica aqui, na Deriva das Palavras. Estão de parabéns, para além da Filipa, a Deriva Editores, e o António Luís Catarino, pela aposta.
10 janeiro 2007
SARCÓFAGOS SECRETOS DE LEONARDO DA VINCI
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