Um país em guerra. Um soldado estrangeiro sobe um muro alto e espreita para dentro de um quintal. Vê corpos inanimados espalhados pelo chão. Alguns mexem-se. Ouve gemidos. O grupo de soldados invade o edifício e percebe que se encontra num orfanato para crianças com necessidades especiais. Descobrem orfãos subnutridos por todo o lado. Não são alimentados há cerca de um mês. Há crianças tão fracas que não conseguem falar ou chorar. Na cozinha os guardas jogam às cartas enquanto cozinham uma abundante refeição apenas para si próprios. Uma busca à despensa revela fardos de roupa e caixas de comida prontas para serem traficadas e vendidas no mercado negro. Apesar de transportadas para um hospital e alimentadas, algumas crianças já não recuperam e morrem após o resgate. A ficção não faz parte desta história.
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28 junho 2007
13 junho 2007
A CASA DO HORROR (IV)
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O horror, quando nos confrontamos com ele, não se traduz obrigatóriamente em morte, sangue ou violência física. O horror não se relativiza dizendo ah, aconteceu no terceiro mundo, isso, lá, é normal, nem afimando o contrário ah, eles preocupam-se com um indivíduo, quando isso, aqui, acontece todos os dias. É considerando esse aspecto que se faz a seguinte precisão: O caso verídico que hoje se narra não ocorreu num país onde a justiça é tida como algo que não funciona, bem pelo contrário.
Um homem inocente foi esquecido numa prisão por uma juíza. Teria bastado uma assinatura sua para que a libertação do detido se consumasse. Passaram 437 dias até que o erro fosse finalmente reparado.
Todo o horror a que o homem foi sujeito, todas as angústias, todas as perguntas que se terá feito, todos os suores, todas as consequências, todo o desespero, a troco de um esquecimento. De uma assinatura.
06 junho 2007
A CASA DO HORROR (III)
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Nem todos os pormenores foram divulgados. Ignoro, por exemplo, como três homens cujas idades rondam os cinquenta anos se conheceram e juntaram para a concretização do plano. Sei, por outro lado, que um agente infiltrado impediu a consumação do horror. Os factos relevantes contam-se em poucas palavras:
Três homens planeiam raptar, num país vizinho, uma menina de cerca de nove anos. Atravessariam de novo a fronteira e passariam o fim-de-semana numa casa onde a torturariam e violariam. Usariam máscaras e filmariam as sevícias praticadas. O filme destinar-se-ia a circular no universo pedófilo e voyeur. Para terminar marcariam a menina com um ferro em forma de S e libertá-la-iam. Feito isto regressariam à sua vida de pacatos cidadãos. Um deles, casado e pai de filhos, agradeceu à polícia tê-lo preso antes que os acontecimentos tivessem lugar, confessou-se aliviado e declarou ter sido tomado por uma vontade que não conseguia controlar. A sua família, em cuja casa foi encontrado o ferro em forma de S, manifestou-se incrédula. Trata-se, segundo eles, de um homem adorável.
29 maio 2007
A CASA DO HORROR (II)
É, de novo, um caso verídico. Aconteceu numa pequena cidade de um grande país. A polícia organizou uma demonstração de como deve a população reagir em caso de sequestro dentro de um autocarro. Alguns polícias faziam de sequestradores, populares faziam de utentes, os restantes polícias faziam de si próprios. O exercício iniciou-se e uma metralhadora começou a disparar balas verdadeiras. Escrevo enquanto os factos estão ainda por apurar. Sabe-se que morreu um rapazinho de treze anos e que dez pessoas ficaram feridas. Irresponsávelmente alguém se esqueceu de trocar as munições mortíferas por munições apropriadas.
O horror, às vezes, é-nos servido pelos nossos putativos salvadores. Na realidade, tal como ficção.
17 maio 2007
A CASA DO HORROR (I)
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Gosto de histórias, sempre gostei, tenho inventado algumas. Uma boa história tem, todos sabemos, um lado violento, angústia e sofrimento, confrontação com a morte, com o horror e com a infâmia.
A barbárie, a selvajaria e a estupefacção são ingredientes que um escritor, por exemplo, dificilmente descarta. Mas a ficção, no que toca à natureza humana, nunca se mediu com a realidade, nunca um romance foi mais violento do que a vida, nenhum horror ficcionado suplantou um horror já vivido.
A Casa do Horror relata casos acontecidos e relatados nos jornais. Nenhum nome, nenhum país, nenhuma raça serão mencionados. Nenhum julgamento, nenhuma condescendência. Como se fosse apenas uma tentativa impessoal de inventariar o incompreensível.
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Um homem assalta uma bomba de gasolina. Não lhe oferecem resistência e o assalto é bem sucedido. O ladrão abandona o local, dá uns passos no exterior e volta atrás. Aproxima-se da empregada, uma mulher grávida, dá-lhe um tiro na barriga e sai de novo.
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