08 abril 2008

POETA
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ouvimos o poeta falar no peso exacto de cada palavra e não sabemos a que se refere. a diferença de um grama, por exemplo - é muito? é pouco? inultrapassável? dispiscienda?
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PERSISTÊNCIA
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antevemos que toda a persistência será, um dia, tornada inútil. persistir em ignorá-lo dá, consoante o ponto de vista, a medida da nossa coragem ou da nossa loucura.

28 março 2008

TUDO E NADA
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quase nada é tudo. disseram-me, porém, que um antigo sábio afirmou também o contrário.
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INDIZÍVEL
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se aceitarmos que existem palavras indizíveis, teremos que admitir que falta algo para as podermos dizer: sons, letras ou ideias. diverso será, aceitemos novamente, se o indizível dispensar a palavra para ser dito. nesse caso trata-se de algo que sabemos o que é, mas não podemos nomear.
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27 março 2008

NANO
desconhece-se ainda o significado real desta palavra. na realidade, é difícil lidar com uma palavra cujo tamanho diminui constantemente.
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ESTRADA
não é a sua direcção que lhe dá sentido. é, sim, o facto de a podermos abandonar e trocar por outra.
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19 novembro 2007

Era uma vez...

Tem razão o arq. José Veloso no Canallagos Jornal On-Line. A verdade, a dolorosa e infeliz verdade, é que os intérpretes da destruição continuam a ganhar eleições e isso, de certa forma, desresponsabiliza-os. A culpa, como de costume, é da cegueira colectiva, logo, não é de ninguém.
BICICLETA

é belo o mundo visto assim, com o vento a bater-lhe na cara ( e a velocidade a separar-me do chão ).

DIA
sucede à noite e extingue-se com ela. mas repara melhor: dir-se-ia uma península singular, rodeada de noite por todos os lados excepto pelo lado do sol.

15 novembro 2007

SOLIDÃO

é quando até tu falhas na companhia que fazes a ti próprio.


DESTINO

aceite-se o recurso ao lugar comum e veja-se a vida como um livro.
- já escrito. – afirmam os que crêem na irreversibilidade do destino.
- em branco. – contrapõem outros.
tranquilizem-se, porém, os primeiros: o livro em branco nunca existiu.
folheiem-se, uma a uma, as suas páginas nuas e busque-se com atenção. algures, numa
folha mais inicial ou adiantada, lá está ela, claramente escrita. a palavra fim.

14 novembro 2007

AS COISAS

As coisas, se não fossem como são, seriam de outra forma. seriam de forma a que alguém dissesse: as coisas, meu amigo, são como são.


OCEANO

é uma confluência de sonhos e de sais. e de águas, também.

13 novembro 2007

BARCO

um homem disse: vou fazer um objecto mais pesado do que a água para atravessar este rio. os outros riram-se dele.
o homem não os ouviu porque, na sua cabeça, já viajava.

RIO

vou deitar-me neste leito – asseverou a água – para continuar a correr.

08 novembro 2007

MEMÓRIA

tal como nos computadores, é importante que possa ser apagada. um homem com a memória cheia tem um desempenho muito lento e tende a funcionar mal ou a não funcionar sequer. upgrades de memória externa recomendam-se. bibliotecas, por exemplo.



COLAR

a nudez dessa coluna de carne que se situa entre o tronco e a cabeça sempre incomodou as pessoas. de todas as coisas com que a vestiram – gravatas, laços, folhos, colarinhos, lenços, etc. – o colar é a mais delicada. um colar fino, muito simples, quase invisível; um fio, apenas.

05 novembro 2007

SETA

sabe bem que nada é eterno, nem sequer o seu voo. já o alvo, muitas vezes, não o sabe.


ESCRITA

um homem junta letras, sons e sentidos, e escreve-os, para que venha outro homem e os ordene outra vez, de forma exacta ou aproximadamente igual. isto repete-se até vir um homem que diga os mesmos sons e entenda o oposto do pensaram os outros. a escrita serve para isso.

31 outubro 2007

ABELHA

tem, como missão fundamental, levar uma flor a outra flor. comparado com isso o mel é apenas uma prenda, uma espécie de rebuçado, um doce.


GOLFINHO

desconhece-se qual a maior nostalgia: se a do homem olhando o golfinho, se a do golfinho olhando o homem.

30 outubro 2007

MÚSICA

no início não passava de uma tentativa de roubar a alma aos pássaros. só depois ( muito depois? ) alguém reparou que revelava a alma dos homens.


PALAVRA

é uma ideia rodeada de sons. outras vezes – como em palavreado – os mesmos sons rodeiam a falta de ideias.

29 outubro 2007

SILÊNCIO

o silêncio, disse o conferencista, é o nome que damos aos sons inaudíveis. um silêncio, senhores, não é igual a outro. Existem silêncios simples e outros mais complexos, muito complexos, verdadeiras sinfonias de silêncios, partituras impossíveis de ler ou escrever, obras e execuções irrepetíveis.
a plateia, não sabendo como aplaudir, optou pelo silêncio e retirou-se sem fazer barulho. na verdade, mais tarde, quando perguntados, ninguém sabia dizer qual o momento mais importante da conferência – se a fase em que o conferencista falou, se a outra em que se calou.


VAGA

é como se um monge zen tivesse inventado esta palavra. abram-se os dicionários:
-elevação de grande porte ( formada nos mares, lagos, rios, etc.).
-grande quantidade de… ( pessoas, animais, veículos, etc.).
-espaço que não se encontra ocupado.
-falta, ausência carência.
-que vagueia.
não falo pelo leitor mas, para mim, faz sentido: uma elevação de grande porte ou grande quantidade de alguma coisa, cujo espaço não se encontra ocupado, e onde existe uma falta, ou uma ausência, ou uma carência, que vagueia.

12 outubro 2007

UM ESCULTOR PARA O FIM DE SEMANA



Joana Vasconcelos é uma das criadoras que mais rapidamente se distinguiu no panorama artístico actual. Recorrendo à acumulação e repetição de objectos de consumo corrente, reorganizando no âmago do seu trabalho aquilo a que chama "a estética de supermercado", Joana Vasconcelos surpreende a cada novo trabalho, sendo disso exemplo obras como "A noiva" - um lustre executado com tampões higiénicos e aço inox - ou o sapato realizado com tachos e tampas de panelas, etc. Destaca-se ainda na sua obra o recurso ao croché envolvendo objectos decorativos comuns, criando uma associação que resulta paradoxal entre um certo "ar" antigo e datado e o resultado de conjunto, absolutamante contemporâneo.

10 outubro 2007

ESPANTA-ESPÍRITOS

denominação normalmente associada a um objecto de funcionalidade não comprovada. deveria, obrigatoriamente, designar algumas fórmulas matemáticas, determinados livros, certas obras de arte.

PEDRA

é possível afirmar-se, correndo o risco de incorrecção apenas parcial, que a sua robustez, coesão, ancestralidade, perenidade, etc., estão intimamente ligados à sua incapacidade para gerar ideias. pode também afirmar-se que todas as características acima mencionadas são habitualmente invejadas pelo homem comum.
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Interrogações, definições, confirmações, confissões e exclamações de uma borboleta em Pequim

09 outubro 2007

ESTRANGEIRO

não tomes o que trazes como definitivo – ou não deixarás de ser estrangeiro.


PEIXES

existem com muitas formas, tamanhos e cores. existem de profundidade e de superfície. existem como predadores, como predados e como predadores-predados. todos cumprem, independentemente das diferenças entre si, a sua função principal: dar à água uma solidez que tenha corpo.

08 outubro 2007

FAÍSCA

a noite que nos antecede é menor do que a que nos sucede, excepto se o universo tiver atingido já metade da sua existência. O conhecimento deste facto serve apenas para tentar situar o momento da faísca que fomos.

AREIA

é constituída por grãos. um punhado contém uma infinitude de grãos. um deserto contém uma infinitude ainda maior de punhados. no entanto, nenhum grão desejaria ser outro.

04 outubro 2007

FOGO

homem e fogo conhecem-se, pode dizer-se, desde a noite do tempos. mas ainda não decidiram quando são amigos e quando são inimigos.


FUMO

invejável, a sua inconstância. Quase tão invejável quanto pode ser preocupante a sua constância.

03 outubro 2007

CALOR E FRIO

o frio não se dirige para o calor com o objectivo de se apossar dele. é, antes, o calor que penetra o frio pretendendo anulá-lo. dito assim: é necessário o suicídio de muitos grãos de calor para aquecer o frio.

AMOR

fala-se de tudo quando se trata de descrever o amor. é por isso que não vale a pena falar do amor. a melhor coisa que o amor tem não é poder ser tudo. é ser indescritível.

02 outubro 2007

John Pizzarelli Trio - O, My Heart Beats For You

John Pizzarelli, lui même, explica aqui e ao vivo algumas das razões pelas quais me sinto cada vez mais "pizzarelliano". Oiçam: